Quando eu te conheci

texto-onibus-um-amorEra uma sexta-feira o dia estava cinzento e eu tinha resolvido chegar mais cedo no cursinho (não ter que pegar o horário de pico com o ônibus lotado). Eu sempre ficava observando as pessoas que entravam e descia parada de ônibus. E você entrou no ônibus com tantos lugares vazio para se sentar e você sentou-se ao meu lado. Seus fones estavam desligados e mesmo assim mantinha-os nos ouvidos. Reparei que você estava usando uma calça jeans surrada – mas ela era bem descolada – e uma t-shirt do Guns N’ Roses e segurava na mão direita um livro de William Shakespeare. Você não tinha cara de garotos que usam livros para impressionar garotas, mas eu fiquei impressionada, nunca tinha conhecido um cara que gostasse de ler e, logo, Shakespeare. Uma coisa eu sabia que você gostava de rock e é fã de livros de dramaturgia.

Eu estava sincronizada em cada um dos seus movimentos. Desde quando guardou os fones de ouvido no bolso e quando abriu seu livro e marcou a página que estava lendo. Eu não era de ficar observando tanto as pessoas, só que, com você era diferente.

Você me olhava sem disfarçar e os nossos olhares acabaram se cruzando. Seria engraçado se eu dissesse que havia um mistério no seu olhar? E pode ter certeza, adoraria mergulhar nesse mar de mistério. Desviei meu olhar para a janela, minha bochecha pinicava de vergonha.

E você sorriu – eu consegui ver pelo vidro da janela. E isso me fez sorrir também.

Confesso que queria conversar com você, mesmo que fosse apenas pra falar do tempo – é um tipo assunto para se puxar com um desconhecido. Só que aquele silêncio entre a gente era tranquilizador.

Você olhava para o seu relógio como se tivesse atrasado. Acabei reparando que você tinha uma tatuagem no braço direito escrita “love come back to you”. Já tinha visto essa frase em algum lugar, talvez tenha sido em algum muro que traz poesias pelas ruas da cidade. Eu sabia que a qualquer instante você desceria e aquilo me fez sentir uma tristeza, nunca tinha gostado de flertar com um desconhecido. No máximo era apenas trocar de olhares, só isso, e nada mais. Comecei imaginar qual eram as músicas que tinha na sua playlist (porque músicas definem quem a pessoa é!). Qual era o seu sabor de sorvete preferido, o que costuma fazer em dias frios e qual é o seu livro favorito?. Eu queria saber tudo da sua vida. Tudo mesmo. Queria apenas pode parar o tempo – será que é pedir demais? Sim, era pedir demais. Você desceu do ônibus e eu fiquei observando e foi embora sem ao menos eu descobrir o seu nome.

Foi em uma terça-feira como qualquer outra, porém, até certo momento. Fazia meses que eu tinha te visto no ônibus. Quando eu te avistei usando um terno e com o cabelo penteado. Nem parecia o rapaz do ônibus daquele dia – com os cabelos bagunçados. Sentei ao seu lado e você sorriu. Começamos uma longa conversa, como se já nos conhecêssemos há anos. Ou há vidas quem sabe. Sem nos preocupar com o tempo ou com as horas. Se alguém me disser que você é minha alma gêmea eu acreditaria. Porque, quando eu te conheci, senti como se eu estivesse uma vida toda esperando por você.