crônica

Basta, amar não basta!

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Poucas frases ditas e ouvidas parecem aprisionar tanto quanto “eu te amo”. Às vezes, só de pensar que amamos alguém ou que alguém nos ama já aprisionamos ou somos aprisionados. É como se o amor fosse tudo. Mas, não, não é ou pelo menos não deveria ser. A gente trata o amor como se ele fosse justificativa para tudo. Não no sentido de usar o amor como razão para alguém levar um carro de som para a porta da casa do outro tocando alguma balada da Mariah Carey ou para chamar um homem barbado e peludo de 30 anos de idade de “bebê”, mas no sentido de achar que por alguém nos amar devemos aceitar tudo que ele faça (ou não faça). A pessoa que você ama não tira um tempo para te acompanhar nos eventos que são importantes para você, não te inclui nos programas dela, acha que toda reclamação sua é um drama, marca algo e não aparece, não atende e depois não retorna, não cuida de você nem da relação, mas diz que te ama, então, você tolera tudo. Ele não te ama, mas diz que ama, então, tudo bem! Ele diz que você é importante para ele, mas não faz a mínima questão de te ter ao lado, não na vertical, em um bom abraço, em uma boa conversa, você só interessa na horizontal, em uma cama, de preferência com as luzes apagadas e sem demorar muito, sabe como é, né? Ele é muito ocupado! A gente faz do amor a nossa última esperança de uma vida feliz, então aprendemos a pagar qualquer preço pela ideia de que alguém no mundo nos ama, de que alguém no mundo nos pertence, de que pertencemos a alguém.

E o preço pago por vezes é tão alto que vamos aceitando “cheque sem fundo” como “amor da minha vida”, e só percebemos a furada na hora do “saque”, na hora que precisamos de alguém e descobrimos que não temos. Ou fazemos com que paguem sem merecermos, pois quando percebemos que o outro nos ama ao invés de o tratarmos ainda melhor, achamos, mesmo que inconscientemente, que ele vai ter que provar. Se ele ama mesmo ele vai ter que conhecer o meu pior e continuar amando, ele vai ter que aceitar tudo, se me ama de verdade! Tolice.Transformamos o amor que nos tinham em ódio e ainda deixamos quem nos amava como se a culpa não fosse nossa. Será que você sabe amar? Será que você sabe ser amado? Sentir amor te isenta de agir com amor (se isso for possível)? No amor, no sentimento, no relacionamento, no coração, qual a sua ação para ter e manter um amor? Sei que falar de amor e flores é um pouco brega, mas não temo ser brega, temo ser alguém infeliz.

Se o amor fosse uma flor qual delas você iria preferir ter e ser: um buquê lindo, que a todos encanta, comprado na melhor floricultura, mas que em alguns dias (ou horas) morreria, ou uma flor de plástico, artificial, mas que duraria por todo o sempre, amém, ou uma semente que demoraria para florescer, que viveria o tempo que tivesse que viver, mas seria real, natural e única? Você escolhe, você colhe. Na vida cada um decide com o que a própria vida será gasta, o que desgasta, mas para todos a vida ensina, não basta, amar não basta. Então, não se encante com “eu te amo”, o amor faz feliz quando o outro puder te dizer, sem receio, “eu te mereço”.

Texto escrito por Ruleandson do Carmo, Jornalista, 26 anos, BH/MG, mestre em Ciência da Informação, especialista em Criação e Produção para Mídia Eletrônica, professor do curso de Jornalismo da Ufop. Para saber mais, acesse  Eu só queria um Café.

Nunca é tarde demais

texto280Estava voltando do trabalho já passava do meio dia era a hora do almoço. Tava passando perto da lanchonete da esquina. Quando olhei para uma das mesas vi você com uma garota alta, loira, e aparentemente muito bonita. Não dava para reparar muito nela estava um pouco longe. Fiquei parada na esquina do outro lado da rua. Vi que você passava a mão nos cabelos dela, aparentemente vocês estavam muito felizes. Aquilo tudo que eu via ia doendo dentro de mim. Queria de qualquer forma acredita que ela era apenas uma amiga sua, que o cabelo dela tinha caído dentro dos olhos dela, e você educadamente tinha tirado, mas alguma coisa dentro mim sabia que ela não era apenas sua “amiga”.

Continuei ali atrás da árvore observando vocês dois. Foi quando vi você passando as suas mãos sobre o rosto dela, e em seguida a beijando. O meu mundo foi se desmoronando. Não acreditava no que eu via… Não sabia se ficava triste ou feliz. Acho que estava triste por ter perdido você e feliz que você encontrou alguém. Espero que ela te ame muito e que te faça muito feliz.

Quando olhei no relógio, já tinha passado vinte minutos que eu estava parada observando vocês dois. Como eu queria chegar perto de você e dizer que ainda te amo. Pode te abraça e te beijar. Como eu queria estar no lugar dela sentada perto de você. “Pena que nem tudo é como queremos”.

Vi vocês dois se levantando da mesa ela seguro sua mão. Deu-me vontade de correr até você, abraça e não deixar você ir embora. Mas eu apenas continuei escondida atrás da árvore perto da esquina observando vocês dois entrarem no carro e sumindo pelas ruas da cidade.

Foi quando sentir uma lágrima escorrendo no meu rosto, e parecia que não conseguia controlar o meu choro.

– Moça você estar bem? Uma senhora muito simpática me perguntava.

– Não! Estou sentido dor de amor… Acabei de deixar a pessoa que eu amo ir embora da minha vida sem pelo menos te dito “eu te amo”.

Ela ficou me olhando fixamente.

– Mas você o amar?

– Muito.

– Então se você o ama diga tudo isso para ele…

– Não tem como, é tarde demais!

– Quando amamos alguém de verdade nunca é tarde demais para dizer o que sentimos.

– Mas, e ser ele não me amar como antes?

– Se você acreditar nesse amo vai atrás dele!

– Mas…

– Nunca é tarde demais para ele saber que você o ama menina!

Será que nunca é tarde para alguém saber que amamos?

Ela tinha razão ser eu o amo, nunca é tarde demais para ele saber.

Eu desejava que ele soubesse que eu o amava, gostaria de sair gritando pelos quatro quantos do mundo.

– Eu te amo!

Doses de realidade

texto83Ando um pouco assustada com a vida. As pessoas, por mais que eu não queira, vivem me surpreendendo. Algumas para o bem e outras para o mal. Sei que ninguém é santo nem demônio. Também sei que expectativas são apenas expectativas. Mas as pequenas decepções ocorrem diariamente, é inevitável. Eu decepciono você decepciona, eles decepcionam. E assim a vida segue um pouco decepcionada, mas com um tantinho de fé.

O mundo nunca vai ser um lugar seguro, tranquilo e mágico. Nada é como nas telas de Hollywood, nosso filme não anda em slow motion nas principais cenas, não existe a palavra perfeita, sua música preferida não começa a tocar em momentos especiais, você não é uma diva de cinema, o mundo não para você se recompor, nada é para sempre e nenhum sofrimento é eterno. É bem isso: nada é para sempre e nenhum sofrimento é eterno. Tudo tem fim, inclusive alegrias e tristezas. Sei que parece meio duro dizer isso, não pense que estou descrente, a realidade me visita de vez em quando e tenho essas crises de franqueza. É que não dá para viver de sonho, de luz, de esperança. Precisamos, também, viver de realidade e enxergar as coisas como elas são.

A vida é como um parque de diversões, nós somos crianças no gira-gira. Em alguns momentos ficar girando é legal, damos risadas, sentimos friozinho na barriga, ficamos felizes. Em outros momentos aquela “giração” toda começa a dar enjôo, aflição, tontura. Então precisamos parar, aceitar aquela tontura toda pegá-la no colo e fazê-la passar. Quando tudo se acalma decidimos se queremos tentar de novo ou não. A vida também é uma gangorra: uma hora estamos lá em cima, vendo o mundo sob outro prisma, abraçando as nuvens e outra hora estamos lá embaixo, com os pés no chão, avistando o horizonte de frente. A vida é um balanço: nós vamos para a frente e para a trás. Buscamos impulso, força, estímulo para seguir e recuamos, para pedir ajuda ao passado e andar de encontro ao futuro. A vida também é escorregador: subimos degraus, chegamos ao topo e num piscar de olhos descemos até o chão. Muitas vezes a queda é violenta, caímos de boca no chão, comemos areia, ralamos joelhos e cotovelos, nos machucamos e choramos.

Asperezas sempre existirão, bem como adversidades. Nada é bom para sempre, nada é ruim eternamente. Dias bons e ruins irão nos acompanhar até o último dia de nossas vidas. O grande questionamento é: como viver esses dias? O que fazer com eles? Como suportar medos e conflitos? Simples: vivendo. Não é sobrevivendo, é vivendo mesmo. Precisamos fazer o que podemos fazer. Nem mais, nem menos. Temos que encarar medos, sustos, passado, angústias, desamores e seguir. Encontrar algo que estimule e procurar viver da melhor forma que conseguirmos. Não dá para se achar mártir, não dá para desistir, não dá para pensar que nada tem jeito. As coisas têm, sim, jeito. Talvez não aquele que queremos, sonhamos ou desejamos. Mas tudo tem uma saída. Nossa grande missão é achá-la.

Sobre a autora: Clarissa  Corrêa escritora. Escreve crônicas, contos, receitas, bilhetes, cartas, cartões, títulos, textos. É redatora publicitária e autora do livro de crônicas “Um pouco do resto”. blog dela.

Procura-se um amor

texto215Hoje sair pelas ruas da cidade espalhando várias faixas, e coloquei alguns cartazes nos prédios, e espalhei alguns panfletos pelas ruas.  Em todos escrevi “Procura-se um amor”. Quero ver ser alguém possa me ajude a te encontrar, ou que você possa ver tudo isso.

Procura-se um amor que sempre vai estar comigo em todos os momentos. Que irá me defender de todo o mal. Procura-se um amor que vai estar comigo para ver o sol nascer e para observar o pôr-do-sol. Procura-se um amor que vai odiar meu estilo musical, mas vai escutar por que eu gosto. Procura-se um amor que sempre que eu estiver triste vai fazer de tudo para me fazer sorrir.

Procura-se um amor que vai querer dançar na chuva comigo. Procura-se um amor que conte piadas sem graça só para me fazer rir. Procura-se um amor que me envie mensagem inesperada de manhã. Procura-se um amor que me traga segurança, confiança e carinho… E que me traga mais fé ao amor. Procura-se um amor que queira morar em uma casinha de frente para o mar. Para podemos acorda com o barulhinho do mar. Procura-se um amor que me abrace quando menos imaginar. E que sempre me roube beijos quando menos esperar.

Procura-se um amor que queira me amar.

E não importa que eu tenha que conhece os quatro cantos do mundo. Que eu tenha que apreende vários idiomas para encontrar você. Se no mundo existe mais de sete bilhões de habitantes tenho certeza que um dia iremos nos encontrar, mas caso não nos encontremos eu te procurei. (…)

Estou te procurando, então, por favor, venha logo.

O que ainda não aprendi

texto102Sempre ouvi dizer que a vida ensina e que o tempo cura tudo. Mas hoje preciso te contar que certas coisas a vida ainda não fez o favor de me ensinar e que o tempo se atrasou e ainda não veio me libertar de uns desejos. (…) O tempo nem sempre cura tudo. Tenho feridas que já cicatrizaram, mas que insistem em latejar quando o dia está nublado. Tenho mágoas que já foram superadas, mas se lembro bem, se lembro forte, se penso nelas eu choro. E o choro dói, dói, dói como se fosse ontem. Tenho vontades que nunca passam. Tenho uma tara por chocolate e queijo que nunca saiu de viagem. Tenho mania de escrever em blocos e ter pelo menos dois deles sempre dentro da bolsa. Tenho sentimento de posse, tenho ciúme, tenho medo de perder quem é essencial na minha vida. Tenho medo de me perder, por isso acendo todas as luzes.

A vida me ensinou a perdoar os outros. Mas fez questão de me mostrar que a gente pode perdoar sem esquecer. Minha memória é boa, sei quem pisou na bola. Aceito que as pessoas errem uma ou dez vezes, desde que se arrependam com o coração. Arrependimentos da boca para fora nunca me convenceram, apesar de eu já ter caído em ladainhas toscas sem fim. A vida ainda não me ensinou a me perdoar. Me condeno, me mando para a cadeia, para a solitária, como pão e água. Cumpro minha pena e nem assim descanso. E eu não sei pedir. Meu Deus, eu não sei pedir ajuda. Nunca gostei de depender dos outros. E tem mais: não consigo dizer eu-preciso-de-você-agora. Sei que é simples, mas não sai. Algo me trava, a voz não sai.

Tenho um orgulho que não me deixa. Acho que tenho que ser a fortona do pedaço, que consigo me reconstruir, me levantar sem dar a mão para ninguém. Não gosto de admitir nem assumir fraquezas nem de demonstrar a minha própria fragilidade. As pessoas fazem SOS a todo instante. Choram, pedem, imploram, suplicam. Não consigo. Para mim isso é traição. Não consigo chegar para a outra pessoa e falar tô-acabada-tô-precisando-não-vou-conseguir-sozinha. Sinto um terror só de pensar.

Ninguém nunca me disse que eu precisava ser forte. Um dia, sei lá quando, eu resolvi que ia ser. Sempre fui aquela que ouviu todo mundo, automaticamente achava que tinha que dar força para os outros. É claro que mil vezes peguei o telefone chorando perguntando o-que-eu-faço. Mas isso é quando eu era adolescente e estava arrasada porque algum bonitão me deu o fora. Meus assuntos sérios e profundos eu nunca soube dividir. Penso que a vida é minha, o problema é meu, ninguém tem que ouvir minhas lamúrias, tristezas, coisas chatas e ruins. Penso que me viro sozinha. Penso que me resolvo comigo, que dou um jeito, que consigo.

Quer saber uma verdade? Isso cansa. Vejo tanta gente dizendo que eu sei tudo, que eu posso ajudar, que isso, que aquilo. Eu não sei nada, apenas me sintonizo com minhas emoções. Não posso ajudar em nada, apenas escuto o meu coração. Ele fala tanto que deixa tonta. Cansei de ser forte, cansei de não saber pedir ajuda, cansei de tentar fazer tudo ao mesmo tempo, cansei de não conseguir dormir direito pensando no que preciso comprar para a faxineira, cansei de tomar café pensando no que me espera na agência, cansei de não conseguir sossegar meu pensamento, cansei de esconder meu lado frágil, inseguro, cansado. Cansei de aceitar as minhas imperfeições sozinha. Por favor, me aceite também.

Sobre a autora: Clarissa  Corrêa escritora. Escreve crônicas, contos, receitas, bilhetes, cartas, cartões, títulos, textos. É redatora publicitária e autora do livro de crônicas “Um pouco do resto”. blog dela.